sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Garoto do Coração Fechado

Ele se apaixonou uma vez. Aos quinze anos. Não foi correspondido.
Se apaixonou outra vez. Aos dezoito anos. Não foi correspondido.
Ele ainda tentou algumas vezes. Mas o carteiro não acertava seu endereço.
Queria acreditar. Mas doía muito.
Doía como vacina anti-tétano. Doía como cotovelo ralado depois de tombo de bicicleta.
Doía como sal nos olhos. Doía como alfinete sendo enfiado embaixo da unha.
E por mais que as pessoas digam que vai passar. Nada demora tanto.
Nem fila de banco em dia de pagamento. Nem ônibus em dia de domingo.

Aos vinte e três anos, ele decidiu fechar seu coração. Nunca mais iria se apaixonar.
Num ritual sem galinha preta, sem farofa e sem cachaça. Apenas com uma chave.
Tomou a pílula da indiferença. E também a do esquecimento instantâneo.
Trancou, colocou a chave dentro de uma garrafa e enterrou na base de um pé de jequitibá.
Prometeu a si mesmo nunca mais abri-lo. “É melhor assim”, pensou ele. E vestiu sua roupa de isopor.

Um dia, numa festa, ele estava à toa. Conheceu uma Menina.
Riram juntos. Dançaram. Dividiram bebidas. Combinaram de sair. Foi divertido.
Ele achou que sim. Mas depois achou que não.
Ela é legal e parece que gosta dele. Mas... Mas as coisas não são bem assim.
“Ela provavelmente vai me abandonar em alguns dias”.
“Ou pior, ela vai ficar pegando no meu pé, e eu vou perder minha liberdade”.
“Ela vai acabar me traindo como todas as outras”.
Ele decidiu que não ia mais vê-la. Se arrependeu e ligou para ela.
Mas na hora de chamá-la, mudou de idéia. “É melhor assim”, pensou ele.

Ela gostava do jeito dele. Ele gostava de ficar com ela. Os dois detestavam guaraná Kuat.
Mas ela queria uma decisão da parte dele. Ela não quer apenas fazer bolhas de sabão.
Ele achou a chave do coração. Mas decidiu não abrir. Pensou em jogá-la no rio, como faz com as lembranças.
Nada mais seria como antes. O medo e a insegurança estariam sempre por perto.
É mais fácil cuidar de flores de plástico sem perfume. É sempre mais fácil fugir do que encarar a dor.